O mundo pelo olhar das cabras

Sempre me interessaram as pupilas das cabras prestes a separar a íris amarela em duas partes. Mas na realidade a íris mantém-se indestrutível, completa, como é total o meu espanto sempre que observo de perto a originalidade dos seus olhos. Eu sei que é curiosa a aventura de me fascinar pela pequena linha a atravessar o olho da cabra mas faz parte do mundo próprio que trago dentro de mim. E ocupo-me a derivar sobre isto: no longo retângulo estreito a permitir que, enquanto as cabras se alimentem, acedam simultaneamente ao horizonte sem necessidade de levantar a cabeça do solo. Na verdade só as cabras sabem o que vêem através das suas pupilas horizontais, deitadas na sua inocência. Porém, li tratar-se da possibilidade da natureza lhes dotar de uma visão panorâmica para fugirem de intrusos quando ocupadas no alimento, por isso, parecem dotadas de alguma timidez, ao se afastarem do que desconhecem. Mas são astutas a evitar o perigo, fugindo-lhe. Além do efeito consequente da visão a ação também se roga por instinto. Estes caprinos têm cornos em espiral, belos adornos que parecem esculpidos em altura, sobre cabeças longas de focinho afunilado, que parecem permanentemente sorrir. São animais ásperos, ou melhor, o pêlo é áspero e ainda assim apetece levar a mão a confirmar se a superfície pelosa do corpo é factualmente grosseira ou surpreendemente macia. Estas cabras, encontrei-as de temperamento mais sociável.

As pessoas atiravam pipocas e elas nos seus tradicionais saltos erguiam esforços para se alimentar dos doces. Parece absurda esta tentativa consciente que nos impele a estabelecer um contacto direto com os animais quando os animais não estão em liberdade. Se estivessem no seu habitat natural creio que não seria possível este grau de confiança, de proximidade. As cabras em condições normais não avançariam a distâncias tão próximas de nós; neste caso até à cerca mas paradoxalmente já se habituaram às visitas amistosas dos humanos, e já reconhecem que vimos para praticar o bem. Prefiro-os em liberdade e em geral não aprecio jardins zoológicos, por encontrar os animais em espaços fisicamente limitados mas no Parque de Saint-Martin os animais parecem satisfeitos. Em França há um notável cuidado com a natureza que começa nos jardins particulares. Oxalá ali os animais se sintam como aparentam estar. Tenho esta ideia de que os animais se ocupam apenas do presente, ao contrário de nós, que por vezes depositamos ânsias num futuro que nem sabemos se virá. Séneca disse que um homem sábio não deseja aquilo que não tem. E o mundo pelo olhar das cabras traz-lhes a vida inteira em cada dia. Sem saberem, os animais ensinam-nos a aceitar subtilmente a felicidade do agora e é a satisfação interior que devemos colectar para caminhar em frente.

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