De estrela em estrela, até vir o sol

A Catarina deixou o Príncipe no Domingo de manhã. Hoje enviou-me uma foto de São Tomé, onde se via um dia esplêndido com aquele nível de saturação próprio dos trópicos. Nenhum postal 4:3 poderia ser mais bonito quando hoje – defronte de um panorama cinzento e ao som de uma chuva torrencial – abri aquela imagem em tons de azul e amarelo carregado sem me ocorrer nenhuma bandeira da Europa de Leste. Apenas agora que escrevo estas palavras e desço do Paraíso ao mundo terreno, percebo que o mundo é uma sucessão de reconquistas muito variadas, onde as terras entre fronteiras se sistematizam através de panos de cor. Há dias levei uma reprimenda de um soldado, porque durante o render da bandeira não me levantei do banco. Sabia a obrigação de desligar o carro em sinal de respeito, o resto da informação chegou-me da pior maneira:”A bandeira é maior que nós todos” disse o soldado. Se levantar é respeitar, então não levantar é desrespeitar, mesmo que o seja sem intenção nenhuma; pedi desculpa. A bandeira é una e maior do que todos, mas o país pode ser discrepante: basta olhar para as duas estrelinhas negras: uma a representar São Tomé e a outra o Príncipe.

E dou por mim a pensar como duas ilhas tão próximas podem ser tão diferentes. Parece um país em catatonia climática. Esta ilha, bebé, chorando noite e dia, escondida numa cabeleira imensa de vegetação verde; a outra, com a sua gente em maior quantidade pisando-a, ou dançando-a, na vaidade de rodar a saia sob o ilhéu onde o Equador se atravessa. O centro do planeta, 1 grau a Norte, 7 graus a Este. Contudo São Tomé, cheia de sol, e, por cá, no Príncipe contamos com poucas visitas do astro-Rei. A verdade é que não podemos andar sempre atrás de ver o que nos falta. Acho que temos todos ganas de apanhar o sol com as mãos e não o deixar fugir. E aproveitar o que temos de melhor: a temperatura quente das águas da praia, mesmo quando está a chover. Baloiçar nas árvores do Sundy Praia à vinda do restaurante que tem o tecto e o chão mais bonitos que um restaurante pode ter. Mas a praia continua a ser o lugar onde podemos estreitar relações com o futuro, mesmo que uma tempestade de repente rebente porque o Príncipe é um lugar para sonhar, naquela imensidão de horizonte, onde nada é interdito.

E a vida segue Leve Leve no emparedado vivo que Santo António ganhou.

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