SALTAR nos céus de Évora

Tanta gente já o fez, hoje foi a minha vez. Escolho um fato azul para cumprimentar o céu de perto; e óculos de haste rosa em homenagem ao universo feminino que se atreve a experimentar o poder da gravidade, como a Laurinha que se juntou a mim nesta aventura e vai ser das primeiras a saltar. Enquanto me desloco para o avião, penso: Vamos ver se o medo me assiste. A ideia é testar se o coração bate mais forte e se o medo vem. O Simão diz “Vamos ver essa coragem toda quando chegarmos lá em cima à porta”. Rio. O que eu mais quero é olhar a terra lá embaixo e sentir algum atropelo interno. Para já, vamos sentados ordenadamente e levo a confiança inabalada. O Luís está junto da entrada, antes e depois do salto conduzirá a câmara externa. O avião segue em rota ascendente mas rapidamente atingimos os 4200 metros de altitude. O Simão acopla as peças entre o arnês dele e o meu. Ajusta-me o elástico dos óculos. Confirmamos em conjunto que estamos devidamente conectados e, portanto, preparados para descer. Arrastamo-nos até à porta. É o momento de entrar no abismo. O coração não tem pressa, mantém o batimento de antes. Não sinto medo de cair porque foi o objectivo proposto, mas da porta durante um nano-segundo tenho uma certa pena de ter um coração adormecido dentro do peito; afinal é quando estamos agarrados à vida que devemos temer o seu fim. Mas não, apenas confio que vamos saltar e mal posso esperar pelo movimento irrevogável de abandonar a pequena avioneta. O Simão dá instruções para me colocar na posição indicada no briefing: perninhas para cima e mãos no arnês. Estou alguns instantes meio-fora meio-dentro da porta. Dali de cima não há sinal da humanidade, não se consegue enxergar nenhum tiro-liro-ló lá embaixo. É como se a Terra estivesse esticada num tecido finíssimo que iremos romper ao tocar-lhe. E talvez passar para outros mundos. Parecem existir apenas os colegas do voo já metamorfoseados em pequenos pássaros. O Simão chama-me a atenção para olhar para a esquerda. O Luís está no exterior do avião agarrado ao topo do mesmo. Olho e reparo na coragem dele, de câmara no pulso, apontando-ma para a reportagem, sendo que ele é que era digno de ser fotografado naquela posição de duplo de cinema, mas não há mais tempo a perder e num ímpeto, saltamos. Durante os 50 segundos em queda livre, a respiração é inusitada, a pele da cara leva uma massagem abrupta de camadas e camadas de ar, como se cada face fosse a membrana percutida de um tambor a ribombar. A verdade é que estamos em queda livre a 200 Km/h. Entretanto, o Luís aparece-nos pela frente. Com algum esforço levo os braços ao centro e com as mãos desenho-lhe um coração que sei que ficará registado na máquina, pois só me ocorre propagar a alegria que sinto. Ele vem dar-me a mão, e os três ficamos por instantes ligados algures no ar descendente. Solto um Yuhuuu e continuo com uma vontade enorme de rir. Não é bem rir, é aliviar a satisfação de poder usufruir da experiência de avistar livremente Évora, o coração do Alentejo, aproximando-se. Neste quase minuto de queda livre, esqueço-me que há um para-quedas que vai abrir mas o Simão não se esquece. Damos uma rotação de 360º. É bom rodopiar no ar, como se estivemos a dançar, ligeiramente tocados por um vinho de travo doce. Solto um segundo Yuhuu em jeito de secretar adrenalina mas nada de gritos. Tinha ouvido outras pessoas que voaram antes e imaginei-me também a gritar. Porém, a experiência é diferente do que supunha. Mais longa e mais serena. Observo os retalhos de terra ocre e castanhos e o desenho do pequeno circulo verde que é o local onde iremos aterrar. Quando o para-quedas abre, o corpo toma um impulso e passa para a vertical, há um certo desconforto porque o arnês aperta-me mas o Simão apercebe-se e folga um pouco as fitas. Fico muito mais confortável. O Simão entrega-me as alças amarelas do para-quedas que dão o movimento para a esquerda e para a direita para que me pareça ter algum controlo na descida. A terra está cada vez mais perto, e todo aquele conhecimento empírico está prestes a terminar. Pisamos o solo e chocamos as mãos. Está feito. Salto tandem check.

Nota: Fotos Skydive

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