Parabéns, António

É muito curioso como nos agarramos à escrita de determinadas pessoas enquanto que à de outras, largámo-las ao primeiro embate. É como se, no primeiro caso, o estreito rio da leitura pudesse seguir fluido levando-nos vogando adiante, quase flutuando, e já no segundo, haver uma espécie de ideia-tronco caída na água que nos detém, e vai daí desistimos de continuar a remar por aquelas linhas turvas que recusamos. Com a escrita é assim simples: ora nos surge mais leve do que o ar ora nos sufoca. Penso que durante a sua safra, um escritor escreve para si, e não para os seus dilectos potenciais leitores, pois nesse caso teria de tresvariar o seu estilo atendendo a cada membro do público. Mesmo que nem sempre se compreenda verdadeiramente um escritor, é preciso dar-lhe alguma tolerância, no sentido em que estaremos a ganhar contacto com as suas ideias únicas, as suas analogias e metáforas, as suas imagens ali descritas, ou seja, se quisermos estaremos a recolher informação nova porque a escrita é um jogo galáctico de palavras e acabamos por nos construir com o que sorvemos dos outros. Em discurso directo não é possível apreender da mesma maneira, pois a eloquência é outra e mesmo que se queira agarrar o que se ouve (salvo uma excelente memória) a palavra nova explode no ar, desaparecendo. Contudo, ter um livro em mãos dá-nos mais tempo, dá-nos imenso poder de conhecimento.

É certo que num universo de leitura tão vasto, cada pessoa percebe com alguma facilidade o que a entusiasma ler. A mim é o deleite de ser conduzida a olhar algo de uma forma que nunca tinha pensado antes (que não pode ser subtraída de alguma noção poética) e o gozo pela descoberta de palavras que não conheço. A estas, faço-lhes uma oval a lápis e escrevo o significado na margem inferior da página; e, sublinho as partes que me satisfazem mais para, quando um dia mais tarde pegar novamente no livro, poder encontrar-me directamente com essas secções blandiciosas, essas que me iluminam, que trazem o melhor de mim ao de cima e me transformam. Quanto mais garatujos acrescento ao livro, melhor sinto a qualidade da obra. Porém, esse frenesim não me chega de todos os autores, mas o António Lobo Antunes sempre me agarrou de forma tremenda, ao ponto de desejar ler tudo o que escreve e de ouvir tudo o que diz. Lembro-me de reparar nas sessões de autógrafos no mistério do olhar dele, durante os solilóquios (que eram o seu modo de responder às perguntas geradas nessas ocasiões), e das pupilas quase paradas a cintilarem qualquer coisa triste a chegar-lhe de dentro; um homem com o quase dobro da minha existência, hoje a completar 80 anos, tão rico de vida, tão pulsante de estórias, e, no entanto, muito reservado no seu mundo comunicado quase exclusivamente através da sua obra.

Como se sabe, o António Lobo Antunes advoga não escrever por inspiração, diz nunca a ter tido; sempre confessou trabalhar muito no seu ofício de escrever e fá-lo de forma metódica e louvável: diariamente, durante muitas horas, como se escrever se tratasse de um trabalho de expediente. E vai mais longe, ele explica que um bom livro deve ser podado no final, como Chaplin afirmava que quando acabava um filme, sacudia a árvore e tudo aquilo que caía era dispensável. O Lobo Antunes diz que nos livros é a mesma coisa, é preciso renegar o narcisismo de sentir que se quer deixar o texto tanto quanto possível perfeito de acordo com os padrões de quem o escreveu. Com efeito, quando lhe perguntaram se nas páginas iniciais de um livro se sente mais barroco do que na versão final do mesmo, respondeu: “Barroco é uma palavra complicada, porque é complexo defini-la. Será que isto são livros barrocos ou não? As primeiras versões são muito de imagens, de metáforas, de cambalhotas verbais, do autor a mostrar que é capaz de fazer certas piruetas e, às vezes, é difícil ceder à obrigação de cortar porque é uma frase bem-feita. O Tolstoi falava muito na eficácia e que um livro tem, sobretudo, de ser eficaz, como um filme, como uma canção ou como um quadro. Muitas das vezes temos de sacrificar coisas que são bem esgalhadas, que são frases bonitas e boas mas que são excrescências. Isso deve desaparecer e frequentemente, com uma pena enorme.”

Além da arte de bem desbastar um texto, o segredo de um bom escritor há-de ser infundir alma nas palavras deixando o leitor seguir o curso dessas águas, entre o real e o imaginário, interessadamente, e sem se perder algures no caminho. Alguns escritores são mestres nisto, por isso, quem lê, honra a sua biblioteca. Parabéns, António. Seguimos juntos.

Colecção particular de livros de António Lobo Antunes com livros autografados entre 2004 e 2008
Colecção particular de livros António Lobo Antunes – capas
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