Só quando entrei no carro soube que iríamos mudar de país. Na Benelux é fácil de acontecer: decidir atravessar uma fronteira entre um estalar de dedos, porque se está perto de vários outros países. Entre Liège a Maastricht são apenas 30 minutos de caminho. Seguíamos animados conversando em espanhol. Eu menos fluentemente que os outros três, mas arriscando-me sempre pois há talentos que emergem da persistência e da arte da repetição. Mais uns meses e veriam o meu à-vontade no dialecto de García Lorca. Vamos a caminho de Maastrich, levo um keffiyeh pró-Palestina amarrado ao pescoço mas acontece-me pensar em Vladimir Putin obstinado na ofensiva na Ucrânia ali a um dia de caminho por terra. O mundo é uma espécie de filme para várias categorias onde o terror impera. Mas para nós que seguíamos a rir em catalão, as coisas são bem diferentes: a vida é bonita, alegre. Eu já visitei Maastricht há mais de 15 anos. Não me recordo dessa Holanda antiga à qual ainda não chamava Países Baixos. A vida passada também é vida mas a de hoje interessa-me mais justamente pelo efeito surpresa. O não saber o que vai acontecer. A incerteza fascina-me. E ver tudo o que a cidade tem para dizer é um grande objetivo para viajar.
Quando estacionamos o carro, numa rua perto do centro, tentamos todos os cartões multibanco disponíveis, dos Revolut aos de crédito, entre os quatro, mas nenhum funcionou nos parquímetros. Nos Países Baixos digita-se a matrícula da viatura antes de pagar o parqueamento, pelo que devido ao processo de diferentes tentativas causáramos uma fila considerável de pagantes. Um senhor holandês ofereceu-se para usar o cartão dele em troca de moedas e assim seguimos caminho. Com o frio entramos numa igreja e depois decidimos alimentar-nos no mercado de Natal. Havia sandes de búfalo numa banca canadense. Optei novamente por perritos calientes e vinho caliente para tentar acalentar o corpo e consegui. Antes comprei um gorro para proteger a cabeça. À saída do mercado em Vrijthof Square tiramos muitas fotografias numa passadeira com as listas do arco-íris e com alguns dizeres que não compreendi: um de Van den Berg “embrace me in this marl lads ochreous breath” mas quem será Van den Berg?… (a internet não esclarece) e lembrei-me da Orquestrada, “se esta rua, se esta rua, se esta rua fosse minha eu mandava ladrilhar”, porém, Maastricht ficou agarrada na minha estória com a música Carol of the Bells porque Alex, um artista de rua a tocava entusiasticamente com o seu violino. Ao almoço já éramos seis porque mais dois colegas decidiram lá ir ter mas acabamos por nos dividir nas ruas entupidas de gente e bicicletas, nas pontes, nas paragens que fomos optando por fazer como a majestosa livraria Selexyz Dominicanen, antiga igreja dominicana que é uma das mais belas livrarias do mundo. Antes de terminarmos a viagem dia, fomos a uma Coffee Shop, cujo odor característico fazia adivinhar a morada. Quem nos atendeu, esclareceu que o acesso é agora interdito a não residentes. Sorry man, government’s law. E isto foi a Holanda recente.










