Monte Nebo e a Holy Land

Não há tradução para isto. Ou, se a quisermos: Terra Prometida, mas, ao dizê-lo assim parece torná-la um pouco menos sagrada. Antes disso, a noite anterior. Chegar ao hotel e largar as coisas para fazer o reconhecimento de Amã: As ruas coloridas, vendedores ambulantes de shisha com bancos improvisados no meio da praça. Lojas de artesanato e bugiganga em Rainbow Street de onde trago um elefante de tromba erguida. (Dizem que se a tromba estiver para cima, dão sorte.) Depois, os restaurantes, o trânsito, a fila dos Quebab, e um bar. Não me lembro do nome do bar. Não tenho fotografias da entrada mas recordo o rooftop e a energia das pessoas. Aprendi nesta noite que os árabes jordanianos são diferentes dos árabes que conheço do Médio Oriente. Na Jordânia, os jovens dançam e cantam e não se importam de se mostrarem felizes aos estranhos. A música não é sombria, é destapada como o rosto da maioria das mulheres. Talvez por não perceber árabe e o que os árabes dizem, possa prestar-lhes a devida atenção. Não disperso na tradução, nem em buscar sentidos para perceber o que dizem. É um ouvido novo que escuta a música do bar e a das vozes que conversam e riem mas a minha atenção está no que olho e vejo. Será a diferença de um país que permite a venda de álcool? Regresso ao Hotel contente. Amanhã o dia será longo. É a subida ao Monte Nebo.

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De táxi tudo parece perto, mas entre o Hotel e uma das partes centrais da Bíblia, separavam-se cerca de 40 quilómetros. O que foi equivalente a uma hora, até Madaba. Até abraçar o menir onde ficou Moisés e entrar na Basílica reconstruída. Entendido no chão e retido nas paredes, resiste o mosaico recuperando os desenhos ao passado. A arquitectura sóbria das madeiras e o cheiro a novo das obras de recuperação, anula um bocadinho o tempo. Mais à frente, sinto o mesmo entusiasmo no museu. Atá lá as oliveiras frondosas vão abraçando o calor árido da paisagem. Mas o que sinaliza o lugar é a cruz de ferro de Giovanni Fantoni que tem uma serpente envolta. E nesse lugar do monte ou, do cimo dos muros de pedra, vislumbra-se o firmamento. Tudo o que os olhos alcançam numa pedra 800 metros acima do vale. O mar morto a oeste e, na planície em frente, o Monte das Oliveiras e Jerusalém, entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. Terra onde pertencem várias terras. O lugar mais espiritual do mundo para cristãos, judeus e islâmicos. Continuo depois o puzzle de pedrinhas. Mais tarde iria ver estes mosaicos transformados em desenhos feitos à mão, pinturas e fotografias de pedra, numa técnica de corte e cola sobre tela. Este passeio foi um sonho que não sabia que tinha até o viver.

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The Chedi Muscat

Nome budista para Stupa, espaço de meditação. Ali, um lugar onde se chega e sente o carinho de ser bem-recebido e o prazer da contemplação. Depois da recepção, um amplo espaço arábico de passagem, confortável, repleto de luminárias, almofadões e tecidos de primeira qualidade. Sento-me. Admiro os arcos em estilo gótico do salão. Chega um tabuleiro com welcome drinks. As malas são levadas para o quarto. O corredor dá para um segundo corredor. Depois um elevador e, alguns passos à frente, a porta do quarto. Está um pouco escuro mas rodo o pauzinho que guia as ripas de madeira das portadas e sinto o calor que se liberta dos vidros. Finalmente, abro a portada da varanda para dizer: “Este é o hotel mais bonito onde alguma vez fiquei“. Pela simplicidade requintada do ambiente, pela linha do mar ao fundo separando-se do céu, pelos espaços de água entre palmeiras, pelo som dos passarinhos, por tudo. Porque mais do que estar na varanda é a paisagem da varanda a invadir-me os sentidos. Mais tarde, há que explorar melhor o recinto. A tranquilidade de um resort dividido em várias áreas para banhos, incluindo uma língua de areia na boca do Golfo de Omã, onde as pessoas não se aglomeram perto uma das outras. As espreguiçadeiras são para quem chega primeiro. É justo que não haja reservas de espaço. Ao lado de um dos bares, a água da piscina estendida quase até ao mar, numa fusão de azuis, calmante. A arquitectura do hotel combina com a natureza porque está embutida na paisagem. As palmeiras equidistantes, os pilares imaculados. Os caminhos e as escadinhas para as áreas de lazer junto à costa estão feitos em passarelas de pedra e madeira. Há um detalhe de perfeccionismo que deslumbra e estou tão embriagada pela leveza do que vejo para desfrutar daquilo, que perco a atenção para a fotografia. A experiência assombra-me no sentido em que me sinto feliz. Para jantar, há, perto da entrada, o restaurante do Hotel com dress code para homem. Se possível, não usar calções. O menú de jantar é interessante mas a gastronomia não é local. No dia seguinte, a mesma sala transforma-se para o buffet, que é divino. Lá fora, está calor mas as espreguiçadeiras estão já tomadas. Com o Sol escaldante de Mascate também na parte ajardinada menos junto da costa, os empregados vêm distribuir espetadas de fruta e chá gelado. A música ambiente de dia chega dos pássaros, à noite vem só das ondas. E, antes de regressar ao Kuwait, vem-me uma voz que me diz baixinho que já apetece voltar.

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Doha deserta no Ramadão

A cidade estava deserta. Cafés e restaurantes apagados e encerrados em plena hora de almoço. As pessoas ou recolhidas ou sentadas, no vagar característico do Ramadão. Das janelas e nas muitas paragens pela cidade, vi o contraste entre a parte moderna e em crescimento da cidade, com a parte velha. Sublime. O espaço público é limpo. O Museu Nacional do Qatar foi inaugurado em Março e, quanto a  mim, é a mais bonita obra de Engenharia da minha empresa, Hyundai. Pretende imitar a rosa do deserto. Os falcões, as cavalariças, as galerias de arte e os objectos árabes à venda. Tudo no devido lugar. Mas o Koweit pertence-me mais um bocadinho.

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Safari pelo deserto em Doha

6 de Maio de 2019. O meu aniversário em Doha. E é o primeiro dia do Ramadão que se reflecte de forma absoluta nos países muçulmanos, como é o caso do Qatar. Cheguei bastante cedo ao aeroporto mas grande parte das lojas irão manter-se fechadas. É, portanto, proibido ingerir alimentos e beber desde o nascer ao desaparecer do Sol. De qualquer forma, dirigi-me ao balcão da Qatar para reservar uma expedição ao deserto da parte da manhã e uma visita para reconhecimento da cidade da parte da tarde. Viver no Koweit tem sido uma espécie de ensaio para uma ida ao deserto nestas condições. E há muitos lugares do mundo só com areia em redor para sair da rotina e desfrutar de uma aventura diferente. Eu gosto disso. O safari pelo deserto permite experimentar emoções mais fortes pela adrenalina da subida e descida das dunas. Nos 4×4 é possível experimentar duna bashing, que é o carro fazer atravessar-se de lado em manobras mais ou menos alucinantes descendo da crista das dunas, enquanto que no bus são os saltos próprios da acção dos amortecedores em pneus de 1 metro e meio de diâmetro. Viajar sozinho faz com que se tenha mais proximidade com as outras pessoas que embarcam nas mesmas aventuras. Uma menina brasileira que ria muito alto confessando tratar-se da experiência da vida dela. Um casal croata que vinha da China, falou-me das montanhas Tianzi. Mais à frente, foi a oportunidade de cumprimentar o Golfo do lado de lá, antes da paragem da praxe com os dromedários.

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Sozinha em Tóquio por um dia – Parte II

Para aproveitar o resto do dia, decidi fazer-me ao caminho e ir até Setagaya a cerca de 1 hora de distância. Talvez a chuva parasse até lá, ou talvez nessa região a oeste estivesse um clima mais aprazível. Mas, independentemente do tempo, eu quis visitar o lugar por ser o templo Gotokuji, do gato da sorte: manekineko. Depois de sair da estação andei bastante a pé entre zonas habitacionais à procura do portão de entrada do parque. As casas sempre bem cuidadas. Tudo no devido lugar. O espaço certo para deixar o carro, uma montra com bicicletas. Uns passos mais à frente, e com a chuva a cair mais pesada, peço e recebo indicações da entrada e chegar ao parque. Construído em 1480, este templo esconde, após o portão vermelho, o lugar sagrado onde mais de 10.000 manekinekos brancos estão dispostos lado a lado, acima e abaixo, em vários andares de prateleiras. Patinha direita levantada para atrair dinheiro e esquerda para atrair clientes. O gatinho compra-se na loja do templo para dar a oportunidade ao dono de ter sorte e, se a sorte acontecer, deve ser devolvido ao templo passado um ano, por isso existem tantos. Reza a lenda que foi uma gata chamada Tama que existiu neste templo que deu origem a esta superstição. Tantos gatos com dever cumprido de regresso a casa. Uma japonesa que também estava sozinha ofereceu-se para me fotografar. A estátua de Kannon, a deusa budista da misericórdia, encontra-se entre os gatos brancos. Há um cemitério por trás. Os cemitérios no Japão são bonitos, não são lugares nada sinistros, são locais bons para passear e reflectir. Os jardins são esplendorosos. Uma árvore em tons de vermelho-rosa deslumbra-me. E a pagoda impera ali altiva, na verdade aquilo pertence-lhe, desde muito antes de eu nascer.

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Sozinha em Tóquio por um dia – Parte I

De volta a Tóquio antes de seguir viagem de regresso ao Koweit. Tempo para escolher o que quero mesmo visitar e para desfazer alguns mitos ao perceber a verdadeira interacção possível com os japoneses. No final do dia, tive várias certezas. Mas começando pelo princípio: a seguir ao duche, desci do décimo quarto andar para um simpático pequeno-almoço e dirigi-me à estação de Kyobashi, linha laranja com destino em Omotesando. Descobri a claridade da rua mesmo à entrada da Apple, numa das zonas mais movimentadas do distrito para me fundir na multidão a caminho do Yoyogi Park mas primeiro, uma paragem no Tokyo Plaza: a colmeia de espelhos. Ou, aquele lugar onde consegui imaginar-me no interior de um caleidoscópio. O parque Yoyogi é um espaço de famílias ao fim-de-semana, onde os piqueniques, os desportos e o ruído das crianças abundam. Assisti a uma sessão de aeróbica ao ar livre e a um senhor que pintava a paisagem. Segui a pé para o Santuário Meiji em Shibuya: outro lugar agradável para caminhar desde o shrine à entrada, parando para observar os barris gigantes de sake embrulhados em palhinha e outras surpresas que me aguardavam. Os japoneses são tão simpáticos que me abordaram durante momentos-selfie oferecendo-se para me fotografar. Às vezes aceitei, outras não. É, porém, curioso que nunca me tenha acontecido em nenhum outro país. Mas a generosidade nipónica neste dia vai mais longe, e conto na cerimónia à qual tive a honra de assistir. Devido à trovoada e ameaça de chuva decidi parar para almoçar num recinto próprio para isso no centro do parque, depois fui explorar o santuário. Entre todas as imagens que retive, fascinou-me uma árvore em particular.

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Casamento Tradicional Japonês

Tocou-me no ombro, parei de andar e voltei-me para trás. O senhor devia ter sessenta anos, era japonês e sorriu-me dizendo baixinho: – Traditional wedding ceremony, apontando para a minha minha direita. E abanou a cabeça como quem diz – Vai ver. Então voltei-me, olhei para a minha esquerda, e vi ao longe, entre as árvores, uma mulher com um traje vermelho comprido, um manto (Irouchikake) e fotógrafos. É um casamento, pensei, depois sorri para o senhor e agradeci-lhe enquanto nos despedíamos com as vénias que se entregam respeitosamente nesta cultura. Acabei por descobrir que eram na realidade 2 casamentos a acontecer mais ou menos em simultâneo. Mas o que teve importância para mim foi a forma como tudo aconteceu. De certa maneira, destaquei-me na multidão. Se não fosse aquela alma reparar nos meus traços europeus e avisar-me, acho que teria perdido isto. Nem tão pouco eu sabia que se cumpriam aquelas cerimónias ali. O senhor partilhou comigo a tradição da celebração de um casamento xintoísta. Este gesto marcou-me. Era a forma de ele dividir o amor da sua cultura com o mundo exterior representado por mim. E em todos os dias passados no Japão, senti este como um dos momentos mais importantes. O meu destino alterou-se naquele instante. Primeiro, pela surpresa de ter sido interpelada no meio de uma multidão, o que me fez alterar o lugar para onde me dirigia. Depois, porque percebi que os japoneses são um povo diferente com quem nos conectamos imediatamente, são orgulhosos no sentido patriótico, interessados em cuidar do que é deles e generosos. E, finalmente, porque aprendi pelo que vi e pelo que pesquisei de seguida sobre estes casamentos, com algumas diferenças como em todo o lado se celebrados mais elevados da sociedade. Curioso o nome do chapéu da noiva, wataboshi; diz-se que os cabelos devem ser levados escondidos pois residem neles espíritos, mas os cabelos vão envoltos primeiro numa rede debaixo da peruca que vemos. Não é por acaso que o Japão atrai o resto do mundo. É uma cultura fascinante com mistérios escondidos em tecidos sem rugas, imaculados e onde todos os detalhes contam a sua história.

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Gion, Quioto

Em Gion encontra-se, provavelmente, o Starbucks mais atípico do mundo. Então ergam-se os copos de papel para mostrar que é ali o lugar encantado onde o café tem o mesmo sabor mas que tomado do assento do chão. E as outras lojas do distrito de fachada em bambu, madeira, e telha castanha: desde guarda-chuvas, aos chás, às chaleiras, aos doces, às carpas de pendurar ao vento, aos postais, e até às caricaturas de ocasião. As personagens com que é possível cruzarmo-nos pelo simples caminhar pela rua. Mas o ex-libris do distrito é a Yasaka Pagoda, o spot a céu aberto que transforma todas as noites em estúdio de fotografia. E a atmosfera é tão agradável, que se fica ali horas sem dar conta do tempo a passar. A Pagoda há mais de 1400 anos erguida naquele lugar, incrível de todos os ângulos que se espreite, devido aos seus 5 andares ao longo de 46 metros de altura. Quioto é uma surpresa bonita para a hora em que nos despedimos. Ficou por ver o desejado Kiyomizudera Temple: razão para um dia voltar.

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Pavilhão Dourado, Kinkakuji

Para lá apanhamos um comboio e um autocarro. É curioso como os japoneses são fotogénicos em colectivo e em preto e branco. Duas horas mais tarde, chegávamos à fila dos bilhetes para o Golden Pavilion. Mas as filas no Japão têm uma característica dissemelhante. É que apesar do comprimento, não demoram a vazar. E este bilhete atípico merece qualquer tempo de espera: uma tira de papel branco com dois símbolos vermelhos e caracteres japoneses por cima. Então, entramos. Kinkakuji corresponde ao que estamos à espera. O templo fica isolado num lugar idílico, foi reconstruído em 1955, e apresenta uma arquitectura distinta nos seus 3 andares. Não é possível visitar o seu interior mas podemos vislumbrá-lo de fora de vários ângulos diferentes, percorrendo o jardim em volta. Bonito, majestoso e imaculado como tudo neste país. Parecia acabado de polir enquanto a folha de ouro luzia ao sol. Depois, percorremos o parque na direcção da saída. Ainda havia bastante que andar. Com outros templos pelo caminho, locais de oração, a asa de chá, e espaços ajardinados muitíssimo cuidados. Todos os locais icónicos são hipervisitados diariamente por Japoneses e por mais alguns turistas de outros países do mundo. A curiosidade é perceber como são tão diferentes mas não sei se descobre.

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Arashiyama, o sítio mais bonito do mundo, a seguir ao outro e ao outro…

Vontade de ficar ali. Contemplar o que o mundo mostra. Mas primeiro atravessar a pequena floresta de bambus: um trilho curioso mas que não corta a respiração a quem já viu e tocou nos grossos troncos dos bambus gigantes do Jardim de Balata. Embora que, aqui, acresça a nipocultura: os rickshaw que abundam, apesar de o caminho ser estreito e curto, levando os carros num corredor paralelo até desembocarem junto a um cemitério atípico que se vê entre a paisagem de canas. No início, os já habituais quiosques que vendem ora mariscos ora doces tradicionais ou mesmo os fotografáveis copinhos com gelados. A seguir são lojas de chinelos, chapéus, leques e outros acessórios. E depois os templos, as pessoas e a sua interação religiosa com as mensagens da fortuna penduradas nos portões dos desejos. Em Arashiyama parece andar toda a gente na rua, trago uma menina vestidas de quimono que aceita ficar numa foto comigo e, finalmente, cruzo-me com gueixas. Inconfundíveis pela sua maquilhagem branca além do quimono e do olhar caído no chão, normalmente, levando ao colo um cesto que é mais um dos seus mistérios. Mas é no rio Katsura que tudo acontece. O movimento dos barquinhos ao sabor das águas pouco agitadas, e, por isso, em perfeita sintonia com o país. Acho que é também a cor que me fascina: a harmonia do verde-água, com o azul quarto tons abaixo de Yves Klein e o amarelo dos cascos, a condizer tão bem com a escarpa do monte dos macacos.

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Fushimi Irani Shrine, a passagem para o Sagrado

Atravessar do mundano para o sagrado neste templo xintoísta, símbolo de um Japão renascido onde todos se sentem bem-vindos, é uma experiência que estes mesmos todos dizem querer repetir. As raposas recebem-nos de coleira e adereços, colorida e simbolicamente, antecipando as lojinhas com múltiplos souvenirs e os restaurantes na base. Depois, as escadarias, rampas e degraus que se sucedem, com muitos japoneses nas suas práticas religiosas e quatro quilómetros de torii em várias horas com as paragens que quisermos para retomar a corrente e muita água, mas sempre em subida até às colinas. Os torii são os portões. E cada um dos portões é único no conjunto das suas inscrições, tamanho e largura. E são milhares de estruturas, compostas por 2 pilares e uma trave a ligá-los, pintados de uma cor vermelho-vivo-alaranjado que representam a aproximação entre o mundo dos homens e dos espíritos da natureza (Kami). Simbolizando, portanto, uma espécie de ascensão às divindades protectoras ancestrais. E atravessámo-los como num labirinto que nos há-de levar a um lugar ambicionado e novo. Às vezes, não vem ninguém e apressamo-nos a tentar a foto perfeita: apenas nós e os portões. Mas, entre tantos turistas e curiosos, é difícil haver essa oportunidade. No cimo do Monte Inari, a 233 metros de altura, estão dezenas de milhares de túmulos. O caminho é longo com incontáveis pessoas em procissão mas não custa fazer. Alguns já vêm a descer em direcção contrária. São na verdade, muitas as pessoas em ambos os lados. Empurramo-nos em espírito, aliados à vontade dos outros e ninguém se atropela. Coisas que se fazem em comunhão com a natureza, com o Sol que raiava nesse fantástico 3 de Maio de 2019, e talvez com algo ainda maior. Porque há coisas que nos guiam sem grande explicação no nosso dia-a-dia até nos questionarmos sobre tudo o que sentimos porém que não vemos. Depois apetece comunicar com aquilo, normalmente olhamos para o céu, a pensar nas perguntas que haveria para responder, acreditando que se pode saber tudo. Às vezes, a comunicação divina parece tão evidente como a Oliwia Mortel a falar com Deus enquanto canta Miserere. E eu a lembrar-me disto com a alegria comigo a subir os degraus num continente diferente do meu e num país tão longe mas onde me senti imediatamente em casa. E era assim que acontecia debaixo dos portões escarlate, passava-se do plano terreno para o lugar onde os outros também iam. A seguir descíamos ao sabor dos portões alinhadíssimos, num caminho onde ninguém se enganava, mesmo a tempo de abandonar o calçado e sentar à mesma altura a que os pés descansam no chão para almoçar.

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