O bilhete compacto de acesso à Cidade Imperial inclui também a entrada no recinto dos túmulos de três imperadores da dinastia Nguyen. Não tínhamos pesquisado nenhum dos três, mas, depois da visita à Cidade Imperial, decidimos pegar na mota e partir rumo ao mausoléu mais distante, transformando a descoberta num passeio pelo inesperado. Eu ia guiando-nos de telemóvel na mão esquerda, dando as orientações ao Pedro através do Google Maps. A passagem numa via rápida e numa ponte retiram um pouco do gozo de viajar de scooter mas a maioria da viagem aconteceu entre atalhos e estradas secundárias sem grande tráfego. Ele segue como se guiasse duas rodas todos os dias, e eu sigo agarrada a ele com o braço direito tentando não nos desequilibrar e apreciando o momento. Adoro andar de mota porque é a forma mais rápida e descapotável de chegar a algum lado e sem quase trabalho nenhum, principalmente nestes países cheios de calor em que não temos pressa e o vento da marcha é um deleite. O fundador da dinastia Nguyen, foi Gia Long e reinou de 1802 a 1820 mas não o visitamos pois o lugar onde foi enterrado não fazia parte do bilhete: talvez por ser ainda mais distante da cidade, nas montanhas em Hương Thọ. Por esta razão, a nossa rota aos túmulos imperiais iniciou-se de encontro a um dos filhos, o segundo imperador da última dinastia vietnamita: Minh Mang, cujo mausoléu fica localizado ao lado do Rio Perfume, a cerca de 12 quilómetros de Hué, em Hurong Tra. Ao entrarmos no recinto, somos acolhidos por edifícios elegantemente preservados, exemplos perfeitos da grandiosidade do período imperial vietnamita. No entanto, o verdadeiro acesso ao túmulo situa-se mais à frente, através de uma ponte que parece guardar a passagem para outro mundo. Da ponte, ao contemplar os lados esquerdo e direito, os nenúfares surgem no lago como sentinelas do mundo espiritual: rígidos e eretos, numa sinfonia de verdes delicados que hipnotizam. Cada planta crescia de forma tão subtil, mas incrivelmente viva, com uma ordem natural quase milagrosa: nenhum caule fora de lugar, nenhuma folha desalinhada. Tudo brilhava, adornado por gotículas que captavam os raios de sol. As cores, a serenidade, o silêncio quase absoluto da natureza — tudo ali era divino, como se uma entidade celestial tivesse estendido um manto perfeito sobre as águas. Lembro-me de dizer ao Pedro que parecia estar dentro do Avatar, ou outra qualquer criação do homem, um filme, mas a verdade é que a Natureza supera tudo.
Não sei pôr em palavras o impacto que aquele momento teve para mim. Fiz uns vídeos e partilhei no Instagram para revisitar sempre que tiver vontade de reviver aqueles minutos preciosos. E relembrar como fomos afortunados: ao atravessar as portas vermelhas, encontrámos o recinto quase vazio. Durante algum tempo, tivemos aquele paraíso só para nós, até que um grande grupo de franceses chegou, mas enquanto nos mantivemos sozinhos eu senti-me deslumbrada, a viver o encantamento e o privilégio de estar ali, e até o disse ao Pedro “Acho que estou no sítio mais bonito do mundo”.
A Terra tem mais de quarenta mil quilómetros de circunferência, mas desde aquele dia, foi aquele, para mim, o lugar mais bonito de todos. Já me tem acontecido muitas vezes pensar que estou num lugar verdadeiramente especial que me aguça a sensibilidade e me espanta mas ali, particularmente ali, a simbiose entre o bonito do que se vê e o espiritual que se sente fez-me sentir de forma diferente e deixou-me feliz. Junto ao túmulo do imperador Minh Mang, avistámos o portão que permaneceu para sempre fechado depois da sua transladação em 1843 pois quando morreu em 1840 ainda se encontrava em construção. Então a seguir, não havendo outro, voltámos pelo mesmo caminho, e alguns passos depois, ao lado de uma árvore, deparei-me com libélulas gigantes voando em círculos. Nunca tinha visto nada assim. Foi o segundo vislumbre de magia pura. As libélulas acima da minha cabeça em círculos, num voo lento. Quase me parecia ver o prazer delas em olhar para mim também. Se calhar estas coisas acontecem às pessoas estranhas que, como eu, se convencem de que toda a natureza tem olhos e consciência humana. Seria espantoso algum dia repetir-se algo parecido na minha vida. Quando voltamos à mota para visitarmos os dois túmulos seguintes eu já tinha ganhado o dia.

O túmulo de Khai Dinh (décimo segundo imperador da mesma dinastia) situa-se no topo de uma escadaria. No exterior tudo é escuro e sinistro, excepto a paisagem que se encontra olhando de cima. Mas no interior do edifício onde sepultaram o imperador, tudo se apresenta moderno, entre azulejos de mil cores, até o tecto está desenhado e parece que o Sol se deitou ali, enchendo de vida a estátua de bronze do imperador. No caminho para a última morada de Tu Doc (o quarto imperador), passamos por mero acaso na Vila do Incenso, na rua Huyen Tran Cong Chua, a cerca de 7 quilometros de Hué. Vimos fazer e compramos incenso de jasmim e rosas, mas, a passagem foi tão rápida que nem tiramos os capacetes. No Tu Doc Thomb, foi necessário descalçarmo-nos para visitarmos alguns dos belíssimos pavilhões antes de encontrarmos o túmulo propriamente dito. Os jardins deste espaço convidam ao passeio. À semelhança do que acontece no império do Sol nascente, vimos mulheres vestidas da época acompanhadas de fotógrafos profissionais. Havia placas onde se lia “CẤM LỬA”, “Proibido Foguear” longe do despojo estético da sinalética de Segurança. À saída bebemos e comemos coco fresco. E quando chegamos a Hué, ainda tivemos tempo de visitar o enorme mercado Dong Ba, depois de seguirmos lado a lado com outros milhares de motociclistas.



























