Ho Chi Minh e Bach: Da Conchinchina à Dança das Motas

A cidade que até 1876 era conhecida como Saigão, carrega nas suas ruas-veias a história de um passado multifacetado e de uma transformação profunda. O nome que hoje ostenta é em homenagem ao líder revolucionário comunista, que guiou o país através de tempos turbulentos e convulsivos. Ho Chi Minh é a maior cidade do Vietname com mais de 9 milhões de habitantes – o que se percebe do alto do Saigon Sky Deck – uma metrópole vibrante e pulsante que parece nunca descansar, sempre cheia de movimento, luz, cor e muito calor.

Quando, em 1859, Saigão era a capital da Conchinchina, pouco se sabia do futuro grandioso que ela teria. Décadas depois, em 1954, Saigão já não era apenas a capital de uma região, mas a alma de uma nação, tornando-se a capital do Vietname unificado. Hoje, com impressionantes 8,5 milhões de motorizadas registadas, Ho Chi Minh tem um ritmo de vida único, onde a motorizada é a espinha dorsal do transporte urbano. Nela, o trânsito parece um caos controlado, um turbilhão de movimentos que, à primeira vista, poderia parecer impossível, mas que, na verdade, esconde uma ordem intrínseca, invisível aos olhos de quem apenas observa. Olhos que não veem acidentes, pois a cidade, em sua essência, parece ter encontrado um código próprio de condução, uma coreografia silenciosa e, outras vezes, ruidosa em que todos dançam ao mesmo tempo. E mesmo nesta época debaixo de chuvas tropicais não se vê uma scoter roçar com outra, porém, são tantas que parece um jogo: o desafio do espaço livre entre elas. Talvez seja por isso que Ho Chi Minh seja conhecida como a “capital das motas”, onde as ruas se tornam um emaranhado de sentidos, rotinas frenéticas e de pequenas histórias pessoais, de motoristas apressados e tranquilos ao mesmo tempo, de rostos que se espreitam por dentro de capacetes e sorrisos que se cruzam no tráfego.  Alguns atravessam os semáforos como se os semáforos não servissem o mesmo propósito nas outras metrópoles. A cidade é também chamada de “Paris do Oriente”, e é fácil entender o porquê. A arquitetura francesa, legado da colonização, impregna cada esquina, cada edifício. Da majestosa Estação Central dos Correios, projetada pelo engenheiro Eiffel da torre parisiense, até à grandiosa Notre-Dame de Saigon, os ecos da Paris colonial ainda ressoam pelos corredores e praças da cidade. Falar de Ho Chi Minh é também falar de café, pois o Vietname é um dos maiores exportadores de café do mundo. E não há melhor forma de experimentar a intensidade da cidade do que sentar num banco pequenino para degustar um café gelado com leite condensado, um dos seus maiores orgulhos. O sabor forte desse café é o reflexo da própria cidade: intenso, complexo mas com uma doçura que surge nas pequenas coisas, nos gestos, nos olhares que trocamos com quem passa, com quem vive a cidade da mesma forma que nós, viajantes ou habitantes. À noite, a cidade transforma-se ainda mais, como se o calor do dia cedesse espaço a uma nova energia. Bui Vien Street, famosa pela sua vida noturna efervescente, enche-se de restaurantes, bares e vendedores ambulantes que fazem de cada esquina um palco de interação constante. As luzes, os sons, os risos, tudo se mistura em uma sinfonia urbana onde a vida nunca pára. E, ao caminhar por ali,ou ao sentar a observar quem passa, é impossível não notar a simpatia das pessoas, que com sua gentileza e acolhimento, fazem-nos sentir em casa, mesmo estando tão longe. Num contexto em que a cidade é uma mistura de tradição e modernidade, de história e inovação, Ho Chi Minh é um lugar onde o tempo parece esticar e condensar-se, onde o passado e o presente se entrelaçam com a suavidade de um acorde de Bach, tocado no momento certo ainda que intemporal: tudo isto a propósito da cerimónia de reabertura da Notre-Dame de Paris e da interpretação da terceira ária de Bach em D maior de Daniel Lozakovich. Bach compôs esta partitura parte da Paixão segundo São João durante a sua estada em Leipzig, em 1723, na Igreja de São Tomás, onde o compositor foi sepultado. Bach viveu no contexto de um regime monárquico absolutista, leal a mecenas e clérigos. Ironicamente, a Igreja de São Nicolau tornou-se um local de reuniões das chamadas “Manifestações das segundas-feiras”, que conduziram à queda do muro de Berlim em 1989 e, consequentemente, ao fim do comunismo na Alemanha (ex-RDA), no ano seguinte. Apesar da geopolítica derivar domínio e poder aos povos, ouve-se uma música e ali está o mundo inteiro mais vivo do que em qualquer paisagem, qualquer viagem. A música só tem um olho para toda a gente, fala todos os diomas e isso é uma herança sem dono.

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