Porto, meu Porto

A grande viagem que me traz hoje começou no Hospital de Santa Maria, na freguesia de Cedofeita, Rua de Camões, Porto. E que privilégio desembarcar no mundo com estes dados e poder chamar-lhes raízes. Veio o infantário na mesma localidade e os anos passaram rápido, sem nunca ter sentido pressa alguma. Aliás, o patamar do presente bastava-me para viver bem mas eu estava apenas a meio caminho. Havia uma coisa a incomodar-me: o tempo, o outro, o atmosférico. O clima parecia-me incorrigível: a chuva diária, o vento, o panorama gris, agreste, pardacento e a pouca luz. Apesar de tudo, debaixo desse céu plúmbeo, cresci, seguiu-se a mui nobre Faculdade, nos Bragas. Nessa altura, começou a assomar-me a alegria do pensamento de migrar para Sul, fosse esse Sul dentro ou além fronteiras. Para permanecer seria preciso que se manifestasse a ideia de não poder ter uma vida igualmente boa, ou até melhor, num lugar diferente. Bastava-me observar as árvores para obter as minhas próprias confirmações: os galhos e, em específico, as folhas. Vê-las livres, desde a vagarosa queda, sendo depois levadas pelo vento, pelo homem, pelas crianças. Pois bem, depois de despegadas dos ramos, apresentava-se toda uma fortuna de diversas possibilidades. As raízes, por seu lado, persistindo eternamente uma vida num mesmo lugar, à maneira de Cristo na cruz; ainda que se lhes encontrasse uma certa vontade explícita de sair, rasgando os passeios e elevando-se à tona da terra, em ganas de igualmente abandonarem o subsolo para desabrocharem fora dos buracos do chão, invertidos em folia para os lados do céu como só os embondeiros podem. Pondo esta excepção de parte, talvez eu prefira melhor comparar-me a uma qualquer antera de flor comum na primavera, entre estames e polinização, qualquer coisa cheia de vida querendo espargir vida a outro lugar. Na minha condição particular escolho fazer como me apraz melhor, e portanto no meu caso próprio, não me centro nas minhas raízes: a vontade leva-me e eu deixo-me levar. No sentido de aventurar-me e de fazer bom uso do tempo. O objetivo é refletir sobre cada viagem e confiar que isso me transforma.

Hoje falo do Porto. Leça da Palmeira foi a última morada que tive no Porto, antes de me mudar para Lisboa. Logo, eu deixei o meu Porto a par de tantas tantas memórias de muitos anos. Algumas mais doces primeiro: os amigos, a família, o verdadeiro mil-folhas da Império feito de clara de ovo com gelatina, os húngaros, o meu Majestic, o som dos martelos no São João, o cheiro a alho pôrro, a maneira de falar da minha gente, a Oculista Confiança que me ensinou os olhos a aceitar as lentes, todas as ruas e esquinas conhecidas, as aulas de condução, os azulejos históricos azul-céu da Igreja do Carmo e da Estação de São Bento onde começou o Interrail, a vibrante Praça Carlos Alberto, os Leões e o Piolho no Carmo, Ceuta e os Clérigos, a escadaria vermelha da Lello no centro da Babilónia, as feiras no mercado Ferreira Borges, os eventos na Alfandega, cantar “Cação cação cação quis ir ao mar” na praxe desde o Palácio de Cristal aos Aliados, as queimas das fitas, os primeiros amores, Passos Manuel, Santa Catarina, os melhores concertos no Coliseu; o Bolhão, Serralves, os jardins, as exposições, a Casa de Chá de Siza em Leça, memórias de aulas e projetos na refinaria, a Casa da Música, o passeio alegre de elétrico e a pé na Foz, o palácio do Freixo, beber um cálice com o nome da cidade nos socalcos do jardim das Virtudes, passar as provas para ingressar na cooperativa Árvore, subir e descer a Ribeira e os rabelos no Douro, atravessar anos ali, sob o fogo de artifício lançado da ponte D. Luis, o carisma do Cais, o encanto do Cubo e as gaivotas, o D. Tonho antes de falir, o Parque da Cidade em Matosinhos com a anémona à vista, as pontes sobre o rio desde a Serra do Pilar, as manhãs, as tardes e as noites nas docas de Gaia e a paisagem além-rio, a mais bonita do mundo.

Hoje falo do Porto. Deixei a minha infância, a adolescência, e parte da vida adulta ali. E mais adulta segui, com esse passado transcorrido feito parte de mim, com muito mais do que as memórias enunciadas. Hoje falo do Porto e agradeço às nuvens e ao vento por me terem iluminado o espírito a abraçar a sugestão de seguir livre. Porto e Lisboa (ou Gaia e Setúbal) são duas vontades opostas não possíveis de satisfazer em simultâneo. Tive de optar e ignorar as claques. Sinto que tive algumas vidas antes desta para aprender esse ofício de decidir, às vezes bem difícil, pois decidir há-de ser a própria definição de viver. E houve tantas opiniões divergentes, bagagem e mobília por resolver. A verdade é que entre uma cidade e outra, os sons não mudam muito (buzinas, motas, pessoas em movimento). Identidade, a cada uma a sua mas as coisas do mundo são as mesmas: portas para entrar, janelas para abrir, mercados, cinemas, restaurantes, esplanadas, jornais com as mesmas notícias. E o principal, as pessoas mais extraordinárias que vamos colecionando ao longo do caminho que estão em qualquer parte e que em regra nos acompanham qualquer que seja a geografia. Em suma, altera-se a cor das fachadas, mudam-se as fechaduras e pouco mais. Alfaces e tripas, fortunas, desditas, enfim. Não há sequer um mar para atravessar entre Porto e Lisboa. Portanto, o meu balanço é que não há uma grande diferença e muito menos uma escolha a fazer. Muda apenas o que eu penso que pode conter uma cidade mas tal é independente de onde estou. Gosto de refletir sobre a personalidade de cada metrópole, e de produzir ideias sobre as quais não se pode procurar confirmação. Não existe para esta última hipótese um carácter certo ou errado a aferir. E não há definitivamente uma ordem para o que se possa pensar em assuntos de radicação, ou sobre o processo mental de dividir o país em dois e escolher o seu melhor lado. Trata-se de reconhecer apenas que existem duas belas cidades, cada uma encerrada na sua magia característica. As pessoas também são muito idênticas. A questão é as do Norte passarem pouco tempo no Sul e muitas do Sul nunca terem sequer visitado o Norte. Portanto, não se misturam, não se percebem tão feitas da mesma massa, tão embrulhadas na mesma bandeira verde e vermelha (para os de cima e encarnada para os de baixo). Não se entreolham de perto e estranham-se ao longe, mutuamente, apontando-se. E eu não quero situar-me entre elas, pois a vida acontece melhor quanto mais me afastar da linha do meio. Se o país não fosse tão pequeno seria outra percepção do espaço luso para melhor entender a competição além da rivalidade do futebol. Explico-me melhor. Eu gosto das duas cidades e a vida por vezes é simples: fixei-me um pouco mais longe do lugar onde nasci mas gosto muito de onde venho e gosto muito onde estou. Vim morar uns quarteirões mais abaixo no mesmo país à borda do mar e esta é a minha pátria. Entretanto, ocorreu-me que as folhas varridas pelo vento já estariam mortas. Acontece porém que não há nada de mais vivo no mundo do que as palavras, portanto, é preciso seguir viagem.

Jardim da Balata, Martinica
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