O Sotão de Anne Frank

Westermarkt 20, centro de Amesterdão, lugar que muito me impressionou e jamais esquecerei: a visita ao esconderijo de Anne Frank. Esta é a minha cara e o meu sorriso antes de entrar no museu, antes de subir as escadas, e antes de atravessar a estante falsa que revela o papel às florinhas do esconso anexo onde a menina judia se escondeu da morte durante mais de dois anos junto de outras sete pessoas. Apesar de já terem passado 11 anos, revivi instantaneamente essa visita, e em rigor tudo que senti durante essa visita, quando soube a notícia de há uns dias da revelação da identidade daquele que terá denunciado a localização deste anexo secreto: um notário judeu de Amesterdão. Desta ação, resultou o que todos sabemos.

Nem todas as viagens nos fazem sentir maravilhas e felicidade. Sobre a Terra tiveram lugar acontecimentos tremendos: durante o Holocausto, o maior genocídio do século passado, foram mortos milhares de judeus pelo regime nazi. Mas vamos centrar-nos em 1940, quando as tropas alemãs invadiram os Países Baixos e uma menina de 15 anos deixou para trás os seus cadernos com o longo testemunho do que experienciou e quis relatar. Uma adolescente com noções claras de injustiça, desigualdade sob a forma de antissemitismo, clandestinidade no topo de um edifício, temendo ser descoberta e assassinada e tendo os sinos da Torre próxima como quase único contacto com o meio exterior. É preciso que nos situemos quando dramatizamos o isolamento relativo que nos trouxe neste século a pandemia. De facto, cada um sabe o que para si melhor lhe assenta sobre aquilo que vive e escolhe conhecer. A educação familiar e obtida na escola permite-nos recolher informação mas a incursão aos locais reposiciona-nos – de acordo com o estado individual de sensibilidade para os acontecimentos – e permite-nos refletir de outra maneira, por isso é tão importante viajar. Ver os posteres de cinema ainda colados nas paredes como Anne descreveu no diário, fez-me imaginá-la ali sentada no chão, aos 13 anos, escrevendo no caderno sobre as coxas, como se falasse ao ouvido da Kitty (a amiga imaginária): “Espero poder confiar-te tudo o que não pude confiar a ninguém“. E nisto senti o arrepio de imaginar o tanto que terão sido aqueles dois anos sem amigos verdadeiros, sem poder respirar em segurança, sem abandonar a angústia e o medo de cada dia, de cada hora. Numa adolescência mais próxima da vida adulta do que da infância, mas no seio limitado (quase claustrofóbico) pelas circunstâncias da geografia e de uma época vergonhosa da História do homem. A minha cara era outra quando saí do museu. Durante algum tempo não conseguia sorrir. Felizmente, que toda a incursão lá dentro a fiz somente entre estranhos; outros visitantes. Não comentei o que vi nem o que senti a não ser em pensamentos comigo própria e através dos olhos dos outros, compassivos e ternos, como os meus talvez também estivessem. Por certo, todos nos entrefitamos por identificação, por estarmos a viver aquela experiência em simultâneo, ainda assim com parcimónia e sem delongas. Mas o silêncio impunha-se fazendo-se existir por meio das impiedosas interrupções do estalar da madeira das traves do chão. Ao caminhamos devagar sobre a madeira, ela range de forma mais prolongada, apesar de no átrio principal estar a passar um documentário da vida dos Frank em registo bastante audível, e conferindo maior carácter de realidade ao ambiente. Em geral, há sempre mais coisas nos lugares do que aquilo que imaginamos, e ali não era diferente. Sentia-se uma sucessão de fatores não antes antecipados, para além do assunto da visita: o ar suspenso no tempo e a decoração antiga em redor, a confirmar a vivência daquela família, os escritos e um certo mistério revelado mas num sentido de expectativa, como se aquelas pessoas se tivessem ausentado por minutos e pudessem regressar a qualquer instante, e como se o final da história pudesse afinal ser diferente.

Mas, como disse, nem todas as viagens nos fazem sentir maravilhas e felicidade, a verdade é que nos transformam. Eu era muito pequena quando li o diário de Anne pela primeira vez, não tinha capacidade para entender os factos que se sucediam ao longo do livro, não tinha maturidade para abarcar os sentimentos que se moviam de umas linhas para as outras; no entanto, acho que foi por causa deste livro ser tão acarinhado e comentado em casa, que comecei a escrever diários. Portanto, que comecei a escrever. Obrigada, Annelies.

%d bloggers like this: