Backstage: o saber não ocupa lugar

O restaurante não tem nome, não tem tabuleta; é uma casa onde mora gente da terra, mas que está na boca de todos, é: A Casa do Quinino. Portanto, uma casa familiar que serve quem se senta à mesa a troco de bem menos do que gastamos nos restaurantes em Santo António. O lugar é de fácil acesso quando subimos desde a cidade e continuamos em frente deixando para trás a curva à esquerda para Gaspar. Depois viramos à direita e algures a meio da recta de Picão, deixando o carro na estrada, acedemos à casa descendo um terreno algo acidentado ao lado do botequim “Tock Tock“. A receber-nos estão seis enormes colunas de uma aparelhagem. Às vezes acho que há intenção de que a música no Príncipe se consiga ouvir em São Tomé, ou então nos céus: o que quer que fique mais perto.

Depois de entrarmos, sentamo-nos na mesa corrida que fica debaixo da mezzanine e vêm-nos receber mesmo dali do lado. Pedimos peixe e pedimos frango. A acompanhar há-de vir banana frita e arroz como habitualmente nestas paragens da Ilha do Chocolate. Enquanto aguardamos, penso que pode ser interessante inspeccionar um pouco melhor o lugar. Há galinhas soltas à nossa volta, que parecem cheias de tarefas, e confusas entre que direcção tomar, e eu decido seguir o galo. O saber não ocupa lugar (ou como falam na língua de cá: “Sêbê na ka kupá lugé fa“) e o cenário que se apresenta do outro lado do espaço real onde iremos almoçar é digno de descrição, e chega a ser poético no sentido mais pueril da inspiração bucólica que um lugar destes pode ter.

O arroz com feijão, “pintado“, é confeccionado na lenha, literalmente, sobre chamas de barrotes de madeira que vão ardendo junto ao chão. A menos de dois metros de distância, as galinhas debicam a água turva de um tacho. Um pouco ao acaso espalhadas pelo chão, as loiças por lavar acumulam-se mas nada que não resolvam um par de passagens numa bacia, cheia de água que alguém carregou à cabeça de muito muito longe. A água que se roubou a esse poço longínquo está em espera ao longo dos jerrycans amarelos que se sucedem no mureto atrás da televisão. A televisão, praticamente sem imagem e sem som, encontra-se exposta em cima de um tronco de aspecto rústico e em jeito de ter levado um corte súbito. Prolongo o olhar durante três segundos no seu aspecto interrompido e parece-me, ainda com mais convicção, faltar-lhe a continuação dos membros de madeira. A música que atravessa a entrada continua muito alta.

Enquanto aguardamos sentados, emana um certo aroma do tecido da toalha de mesa que misturado com o calor condiz com o imaginário africano que contém o Equador lá dentro. Subitamente ouvem-se passos nas traves da madeira acima de nós. Há um menino que desce do primeiro andar da casa, envolvendo a Roberta, irmã mais nova, no tecido que a levará consigo às costas. Até então, além de mulheres carregando os filhos desta maneira carimbada pelo continente, eu só testemunhara meninas abraçando bebés nas costas, arrostando-nos, embora sem intenção, pelo excesso de zelo europeu feito de marsúpios e carrinhos por medida. Na Europa civilizada considero-nos incapazes de enlaçar um bebé nas costas, quando mais ser menino e ter esse engenho no sangue ou no destino. Mas nestas terras todos os dias há algo novo para ver. Quando a comida chega, vejo o peixe grelhado inteiro, muito fresco, de aspecto delicioso, com a banana dividida em palitos e o arroz a acompanhar. No final, ananás partido para sobremesa. E sentimo-nos em casa.

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