Zombies da Montanha

Talvez seja o episódio mais bizarro que compreendeu a longa viagem de mais de 12 horas desde Kampala até Ruhija a nordeste do Parque Nacional da floresta impenetrável de Bwindi, no sudoeste de Uganda, aquando da visita aos Gorilas da montanha. A chegada à reserva aconteceu durante a noite. Uma noite envolta num manto escuro que parecia sobrepor-se à própria noite. Ao longo da montanha, a estrada além de estreita era muito acentuada, esburacada, e sem pontos de luz. Uma subida que pelo desconforto se sugeria interminável. Se por um lado, a noite parecia tecida por uma camada de penumbra forrada com outra não permitindo que confirmássemos o precipício lateral da montanha que veríamos à luz do dia seguinte, por outro, a mesma ausência de iluminação fez-nos encontrar um perigo extra: as pessoas. As pessoas caminhavam no escuro e surgiam de repente consoante a nossa marcha. As pessoas das aldeias que atravessávamos, surgiam iluminadas a curta distância apenas pelos faróis da carrinha, e percebemo-las caminhando na noite cerrada, regressando provavelmente de longas distâncias e sem estarem munidas de lanternas nem de qualquer tipo de acessório de iluminação.

Seriam estas pessoas capazes de ver no escuro? Seriam conhecedoras daqueles caminhos ao ponto de os decorarem sem necessidade de se socorrerem do importante sentido da visão? Será possível que a visão humana também se adapte ao breu completo como no caso dos animais dotados de visão noturna? Serão os hábitos que adquirimos decorrentes das nossas necessidades e, neste caso, da falta das condições que eu antes julgaria essenciais? Ignoro as respostas, mas é certo que me deixo refletir sobre estas diferenças antropológicas. A capacidade de adaptação do ser humano ao meio é no mínimo surpreendente. Para eles que regressavam com toda a normalidade, aparentando um conhecimento incontestável das coordenadas por onde passavam sem necessidade da orientação primária da luz, nenhuma destas questões encontraria razão de existir. Hoje é a clarividência na ausência de iluminação e amanhã pode ser outra coisa qualquer. Porém, essa diferença de perspetiva que nos diferencia é também o que nos aproxima pois vem insuflar em mim uma inesgotável vontade de viajar. Viajar é aprender a ver.

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