A Última Estação

Do outro lado da Igreja, lê-se: “Bar A Última Estação“. O edifício é azul. Há uma entrada traseira mas subimos após atravessarmos o bar. Normalmente, a música acontece a níveis mal suportavelmente elevados. Gosto de ouvir a faixa OSAMA, gosto de cantar «Omapadikero osonakoluna/ Saniladikero osonakoluna/ Osonakoluna, osonakoluna» como se fosse uma linguagem nova; pois perco o significado da maioria da semântica intraduzível ao meu limitado entendimento. Mas o ritmo, o coro de vozes, a energia que se liberta, tudo isto, juntando as várias vozes e raças, dentro e fora da canção, vem unir-nos. Gosto de outras músicas que se repetem muito na ilha, como a Calm Down do REMA. E esta contaminação (o constatarmos que as mais diversas pessoas podem gostar de uma mesma coisa), só a música pode. Então, ainda embalados no som que nos agita mas que vai ficando para trás, subimos as escadas para o terraço da Tonha. As escadas são de madeira e quase a direito. Os andares são feitos de tábuas com intervalos grandes o bastante para vermos a vida em baixo. Não marcamos nem reservamos lugares. Temos tido sorte. É quase sempre “pintado” com polvo. O polvo da Antónia é o melhor do Príncipe. Sentamo-nos na esplanada de plástico, normalmente sob um manto de estrelas pois é hora de jantar e a noite cai cedo. Às vezes ainda não são seis da tarde e a noite inteira já desceu. Não pode ficar mais escuro. De resto, nem uma aragem. É normal chover, durante alguns minutos. A Neusa comenta que parecem os candeeiros modernos da Europa que nos borrifam em compassos de tempo, refrescando-nos placidamente, mas neste caso é mesmo a natureza incontrolável e, confiando nela, levantamos a cabeça e o pescoço atrás para a chuva nos bater nas faces. Fechamos os olhos para senti-la fresca. No terraço da Tonha não temos onde nos abrigar. Os cães não sobem escadas assim tão íngremes mas há um gato com poucos meses que mia por um pouco da nossa comida. Costuma lá estar, quieto, mas se o olhas nos olhos, mia, como se perguntasse “vais dar-me comida?” e mia como se ganhasse balanço. Disseram-nos para não alimentar os animais nos restaurantes, caso contrário aprendem e ganham o hábito de lá ir aguardar alimento e estes felinos são filhos da caça, ninguém os vai adoptar a não ser a rua.

Mas há outra particularidade neste espaço que são as instalações sanitárias, no andar inferior, térreo, junto ao bar, saídas de alguns séculos atrás. Um daqueles buracos do Universo que só acreditamos quando vemos. É que já não existem lugares assim onde há beleza dentro do horrível. A palavra não é bem horrível, mas não omito uma certa repugnância: ficas a pensar se usas o wc ou se aguentas até casa. Por outro lado, é um lugar único e queres investigar tudo o que se apresenta no seu interior. Se eu fosse um Guia, faria questão de ciceronear as pessoas até lá: é como se entrassem numa pintura de outro tempo e pudessem perceber todos pormenores tridimensionalmente. Não há electricidade no edifício, pelo que é necessário ligar o flash da camâra do telemóvel para se ver tudo. O detalhe do chuveiro, a ausência de azulejos brancos perdidos no tempo, as manchas de humidade, num bolor escuro estendido num dégradé inimitável, e o espelho de moldura dourada levemente inclinado que é o único apontamento mais contemporâneo, ainda um balde por lavatório, e uma escova grande amarela. E na sala ao lado, sem luz, um alambique, bidões, baratas a passar, imagino que ratos também e ocorreu-me pensar “Que festim faria aqui a lagaia”.

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