Tradição da Cestaria

O senhor Leandro tem 81 anos. Nasceu em Cabo Verde e veio para o Príncipe, dedicando-se cedo à arte da cestaria. Os discípulos, ambos de 22 anos, chamam-se Arsénio e Jaylson. Antes, trabalharam na pesca, padaria, construção mas um dia viram o anúncio do workshop de cestaria e, entre 20 candidatos, foram os escolhidos como sendo os melhores para seguir as pisadas do mentor. O senhor Leandro ainda hoje vai ao mato de catana em punho em busca da sua matéria-prima: a folha da palmeira. Depois sentado de canivete na mão descasca a folha, livrando-se da parte verde, retirando-lhe o miolo, a tal espécie de palha que vemos nas peças acabadas.

Os cestinhos vão nascendo rapidamente com a boa disposição dos três artesãos. E até parece que passar a palhinha ora acima ora abaixo ajuda a exorcizar os demónios do dia-a-dia das roças, o peso da história colonial recente, e as últimas trovoadas pré-gravana. O senhor Leandro dá a voz aos dedos eternizando o seu saber nas peças. O seu nome é por demais conhecido no Príncipe: é como se todos os objectos da ilha que são feitos em palha tivessem saídos das suas mãos. Disse-me que nunca se cortou a fazer um cesto, ou a roubar uma folha à palmeira. Todas as manhãs trabalham na Paciência, mas hoje, vieram para a demonstração. Montara-se uma mesa para exibir os vários exemplares. O Sol batia quente. Convidei-o a levantar-se e empurrei-lhe a cadeirinha para a sombra. Agradeceu tão humildemente, sorrindo muito, o que me fez vê-lo bem presente neste mundo. Mesmo falando dos filhos que há muito não vê, e de ter feito desta a sua terra esquecendo a outra que só traz mais verde no nome. Parece que já perdeu o rasto a esse arquipélago distante e não ficou triste com isso. Afinal, “temos cá tudo” é o que se ouve dizer.

Na banca há chapéus, abajours, cestos mais tradicionais e, contam começar a tecer em breve cestos de ir às compras. A nossa empresa está a organizar um curso de gestão de pequenos negócios e irá apoiá-los com uma pequena loja na cidade. Dizemos que são iniciativas para não deixar morrer as tradições. Acções de sustentabilidade. Mas o que me marcou verdadeiramente neste dia, e nestas conversas foi perceber que o mestre Leandro, trabalha ainda hoje, aos 81 anos, porque assim se mantém vivo.

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