Bem Vindo à OQuê Pipi

O miradouro da Nova Estrela, onde se avista a massa rochosa “Boné de Jóquei”, fica no Terreiro Velho a caminho da Cascata de O Quê Pipi. O nome suscita sempre perguntas. Dizem que antigamente só as mulheres usavam o local para se banharem, mas hoje em dia é um ponto de interesse turístico que não restringe o género humano. E perdendo só mais um minuto com questões semânticas: sobre o rochedo em frente ter nome de acessório para atleta de corrida de cavalos, quando na ilha não há cavalos, provavelmente isto são coisas que a televisão traz, ou os turistas, ou talvez cheguem esses bonés nas trouxas provenientes de Inglaterra e as pessoas os reconheçam. Eu, de cada vez que olho aquela rocha ao fundo, vejo uma coisa diferente: um caracol, uma tartaruga, até uma bola de gelado da Romar a derreter na taça. Tudo nomes que conservariam melhor a identidade da ilha.

Já no Parque Natural, o Balú sabe de cor como chegar à cascata, mas há setas amarelas no trilho 3 que não nos deixam duvidar das suas orientações. É seguir cada seta até encontrar a seta seguinte como se fosse um jogo, ou uma alusão ao Camiño. Mas há outras surpresas. Logo nos primeiros minutos de caminhada, ele presenteia-nos com cacau acabado de colher, que com uma pancada firme dividira em duas metades, para provarmos. Eu não sabia que o cacau vinha ao mundo revestido de uma placenta gelatinosa espessa que se esconde no interior da casca. Tendo experimentado chocolate, com entre 70 a 80% cacau, produzido na Paciência e chocolate do Cláudio Corallo, não experimentara até então o verdadeiro sabor do cacau fresco do Príncipe. Mas de fruto na mão sem açúcar, sem manteiga, sem adição de nada – excepto o ar reconfortante e o som dos animais da floresta, e a omnipresente verdade de uma natureza quase inalterada desde que o mundo é mundo -, pude confirmar a diferença. Pude pôr outras coisas em perspectiva, tirar outras conclusões, como esta de que a cidade nos encerra numa ignorância tal, que chega a ser crítica em relação às coisas mais orgânicas da vida. E o privilégio que há-de ser crescer no meio da natureza de olhos abertos a fazer estas aprendizagens, tocando a realidade tal como é, em vez de apontar os desenhos nos livros e dizer o nome de uma fruta que nunca se mordeu, de um animal que nunca se viu, ou decorar no mapa linhas a fazer de rios.

Morreu uma árvore enorme há algumas semanas. Já nos tinham avisado. Tombou. Quando a vi em toda a sua dimensão imaginei o tempo que terá demorado e o abalo ao cair: o estrondo que terá feito ao longo de vários quilómetros, cruzando o silêncio das outras. Agora faz parte dos obstáculos do percurso. Tem sido aproveitada por segmentos. Uma árvore é muita madeira, sim, é. Mas não é apenas muita madeira. É mais do que isso: é a voz das outras, talvez de todas. Agora temos de passar-lhe por cima, pensar no seu tamanho, seu peso, na forma do tronco já esventrado onde pomos as mãos, agarrando-a como agarraríamos um corpo, sentindo-lhe a textura interna, ainda cheia de vida. O coração líquido em ocre. Fogo por queimar em farpas. Um árvore como se estivesse a dormir em nome de todas, sonhando à sombra das outras e a raiz provavelmente a beber ainda da terra, nutrindo-se.

Ultrapassada a árvore há mais pedras escorregadias, terreno íngreme, um momento para avistar a Praia Abelha e outra vez corda para nos auxiliar na subida. Subitamente ouve-se água a cair. A água que se precipita desde os 30 metros da montanha. Que lugar bonito, pensei. Imaginei-o de noite, com as estrelas por cima em vigia, ou riscado de chuva e continuava bonito. A água estava fria comparando com a do mar. Balú dá um mergulho puro, de quem conhece bem a profundidade da cova onde a água se deita, depois escala a rocha e sentasse como se estivesse a meditar. Nessa rocha lê-se a letras amarelas “BEM VINDO À OQUÊ PIPI” e vejo aquelas duas palavras juntas, sem espaço, e penso: mas porquê que “o quê” ali se escreve pegado? Descubro que significa Montanha no idioma nativo. E o nome passa a fazer sentido mas chega a hora de voltar e as setas estão agora todas ao contrário.

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