Subir o Pico Papagaio

O Balú está à nossa espera junto do conhecido banco da má língua. (Curioso um banco ter de assumir o nome de um vício de maledicência de quem por lá se sentou.) O Balú alugou um Jimny Suzuki, azul elétrico. O pequeno 4×4 azul levar-nos-á até à entrada do Parque Natural. Ainda há tempo para comprar umas bolachas para acompanhar a fruta que levamos nas mochilas e seguimos. Ao passarmos a Roça de Porto-Real, Balú cumprimenta cada pessoa que vemos das janelas, pois foi ali que nasceu e ainda vive, depois o terreno vai ficando cada vez mais acidentado. Chegados ao portão do parque, poucos metros à frente saímos do carro e começamos a caminhar.

O chão revela-se lamacento. Demoro pouco tempo a sentir a lama chegar-me às meias. Balú explica as plantas medicinais que se vão encontrando na floresta. Fico com a sensação que há plantas para todos curar todas as maleitas e que as farmácias não precisam de existir. A fauna é rica, sente-se com o olfacto e com a visão porque estamos rodeados de 60 tonalidades de verde. Logo logo o desafio da subida aumenta. Aparece um cão de patas rápidas que nos vai acompanhar até ao final da aventura.

Da perspectiva de quem vê a facilidade com que o canídeo se movimenta montanha acima, até parece um percurso fácil. Agacho-me no terreno mais íngreme e agarro-me às raízes que por sua vez se agarram à terra e apoio-me nas pedras para avançar na subida. E quando não há risco de estar em pé agarro-me às árvores que vão estando por perto. Passados 30 minutos de subida, a Aurora comenta que “isto não é para qualquer pessoa”. Balú responde que vamos andando leve leve porque é Sábado e não há pressa. O guia Vádu com quem nos cruzara-nos à entrada do parque que acompanha uma canadiana até ao topo do Pico leva um bom avanço. Sabemos disso porque vai telefonando a Balú para confirmar a que distância estamos. É nestas alturas, em que olho em redor e tudo me parece idêntico, que me questiono que referências usarão estes homens para identificarem os locais no interior da floresta. Ali há-de ser o sétimo tronco depois das pedras a uns 54 metros do primeiro miradouro. Eu não sei mas eles sabem. Subitamente, começa uma chuva (nem muito forte nem muito branda) que nos faz retirar as gabardines da mochila. Em menos de um mês aprendemos que na Ilha um casaco de chuva leve é uma peça obrigatória para levar sempre que se sai de casa. Não há sol que se demore, nem chuva que tarde a cair. Disto eu sei e todos sabemos. Com a chuva vamos ficando com os cabelos e o rosto molhados e a escalada torna-se mais difícil, as pedras ficam muito escorregadias. A partir deste momento deparamo-nos com cordas grossas em nylon atadas a longos e fortes pregos cravados nos troncos das árvores. Estas lianas sintéticas são compostas por vários nós, mais ou menos equidistantes, que auxiliam a tarefa de nos agarrarmos e de avançarmos montanha acima, fazendo agora mais força com o músculo dos braços e menos com o músculo das coxas. Há passagens estreitas sob árvores caídas, que demoramos mais tempo a ultrapassar e a Aurora tem razão quando volta a dizer que o caminho não é para todos. Uns metros à frente paramos num miradouro para avistar o João Dias pai e o João Dias filho: as imponentes montanhas a Sul.

O resto da subida é ainda mais a pique e não vemos a hora de superar a montanha, chegar ao topo, aos 680 metros de altura e olhar o horizonte com esse sabor de conquista, depois de cerca de 2 horas e quarenta minutos de caminhada.

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