A Vida em Soroti

Hoje, venho falar sobre as quase duas semanas desde que me mudei para Soroti. Aqui, não me parece certo fotografar a cidade, não me parece bem. A câmara tem estado guardada. Encontro-me na fase de observar para compreender, dentro de mim, esta experiência. A meio de uma volta a pé e um pouco por acaso, fotografei com telemóvel o grande Moru Apesur: o monte de granito que emoldura a cidade. Mas, por dentro da gravura, o retrato de Soroti são as suas poucas ruas com muita muita gente; lojas e vendas de passeio; alguns supermercados, um talho, um banco, um restaurante, muitos boda boda e ciclotaxis. Enquanto caminho, olho à esquerda e vejo o feijão em grão e a farinha dentro da serapilheira, os ovos empilhados ao sol, os vegetais e as laranjas amarelas no chão, e os sempre abundantes jerrycan. Do lado direito, a surpresa de uma horta de amendoim em flor, e a seguir ao campo de futebol, o grande bico dos marabus inspeccionando o caos do lixo acumulado a céu aberto. Apesar disto, a vontade para filmes e livros é pouca. A distração do que me rodeia é profundamente útil. E escuto com atenção. Hoje, são estas gentes que me educam sobre um mundo – que, até então, me chegara distante através dos documentários e noticiários -, saturado de palavras de miséria, pobreza e sofrimento. Agora, é este terceiro mundo que tenho em primeiro lugar, desde o seu núcleo, ao seu ritmo, e longe da normalidade da minha organizada Europa. Todos os dias faço novas aprendizagens lidando com as pessoas, e adapto as minhas reações às novas circunstâncias. O imprevisto deixa de ser novidade e vai entrando no dia-a-dia. A vida passa a ser outra e eu vou mudando também. No primeiro dia em que entrei no escritório, estava um morcego a morrer na banca da copa. Deve ter entrado durante a noite anterior pelos respiradores de tijolo próprios da arquitectura destes países e já não terá conseguido sair. Porém, de todos os animais do mundo, o único que me causa pavor, esperava-me com aspeto de sapo, frágil, indefeso, e acho que por isso o medo passou. Mas esta é que é a verdadeira África, fora dos resorts, do glamour dos bons hotéis, da redoma dos safari. Mesmo que a água da torneira não se possa beber, a vida pode ser muito boa, porém, este outro lado existe. O mundo não é só feito de jardins japoneses, praias a sul de areia quente para não termos de pensar no resto. Na verdade, a distância entre tudo é bastante curta. E nestes quilómetros, caminho no meio da estrada feita de terra vermelha e entro no mercado. Desde que cheguei, ainda não me cruzei com nenhuma outra mulher branca. Finjo não perceber que me pedem 1000 Xilins a mais pelo ananás: são apenas 23 cêntimos. Os mesmos 23 cêntimos que compram um cem número de coisas por cá. Mais à frente, a carne expõe-se às varejeiras azuis, as crianças fazem churrascos de animais que não consigo identificar mas que têm o tamanho de ratos, há calçado e roupa em segunda mão das trouxas enviadas dos Estados Unidos. E esta é a verdadeira África, rumo à própria descaracterização. As vacas circulam pelo meio disto tudo e as galinhas são transportadas pelas patas amarradas nas motos, em colectivo e de cabeça para baixo. Por agora, as palavras agarram-se às cores, aos sons e algumas das imagens ninguém deseja ver. Outras há com alguma poesia, como hoje, quando há luz da manhã, encontrei a bicicleta de um dos guardas na sombra de uma árvore, com passarinhos pousados. Deve ser a bicicleta do mesmo que me bate à porta para entregar mangas acabadas de colher. Junho é época delas e, nesta terra abençoada, é tudo tão simples, que basta esticar um braço para encher um cesto de fruta. Entretanto, esta semana tentaram assassinar o Ministro dos Transportes, e as notícias que chegam de Kampala informam sobre as forças da autoridade impondo o recolhimento obrigatório como os pastores fazem ao gado desordeiro, batendo-lhes com bastões. No limite, alguns irão presos e o medo vai estando no comando. Ou é assim que o Presidente avisa que este continente não há-de ser outra Índia, e é preciso ter medo dos dois: Covid e Museveni. Mas, por cá, em Soroti, o vírus mais espalhado continua a ser o da alegria e da liberdade. A todas a horas há sempre gente que canta, que ri, que se veste de cores muito vivas e enche os olhos de sorrisos – tenho reparado que, de faces tapadas, o sorriso escapa-se detrás das máscaras subindo para o olhar. A propósito de máscaras o universo continua a enviar-me sinais de Portugal através da DSTV: até o traje dos caretos de Podence tem as cores do Uganda. E, por falar em trajes, há dias, inesperadamente, encontrei na avenida principal dois Karamojong que vendiam sandálias de pele e missangas. Aproveitando o encontro, ergui o telemóvel e pedi ao que estava vestido de manta em xadrez vermelho para o fotografar mas ele desatou a correr. E, nem me ocorreu fotografá-lo em fuga e conservar o registo desse momento. Agora vai caindo a tarde na cidade. O sol põe-se corado a descer ao longe, e tiro uma fotografia à vista do jardim mas os vermelhos e os laranjas que saltam para dentro da câmara não são os mesmos. Apesar de tudo, acho que as cores e os cheiros de África não se levam daqui.

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