
Viajar em profundidade nas águas consiste, sobretudo, em ir ao encontro do silêncio. A ideia é magnífica para quem, como eu, vive do esplendor das palavras e não se imagina num mundo sem elas, sem vozes, sem música. E, apesar desta ideia pueril e extremamente apaziguadora de um reino de silêncio e de tranquilidade, a subtração do som não me seria, em absoluto, suportável por tempo incerto, mas a vida é feita para viver. E antes do batismo de mergulho, antes de separar essa poesia da minha existência real, só pensava em descobrir o mundo novo do fundo do mar e, antecipando a experiência, derramava em mim um medo miudinho: a ansiedade de a respiração não funcionar naquele mecanismo de mangueira; o medo de saltar de costas, que parece inerente a quem mergulha, mesmo com a certeza das garrafas cheias, confiando ainda que não deixaria de morder o bocal, com a garantia da companhia de instrutores experientes; porém, de toda a maneira, era a iminência do meu corpo a projetar-se no mundo anfíbio, para mim desconhecido sob aquelas condições. E depois há o querer muito ir. Há o querer muito sair da rotina dos dias e experimentar abandonar-me da terra, trazer a sensação de alerta aos sentidos e despertar mais uma vez. É, portanto, um búzio de sensações, o querer adentrar as águas e descer a espiral do medo. Por um lado, a dimensão das águas é imensamente apelativa; por outro, contar com o peso das garrafas e a rigidez do espartilho do fato, o empecilho das barbatanas, mais a máscara a deixar entrar água (eu tenho o rosto estreito e a máscara não cumpre bem a função), são vários constrangimentos face ao deleite antecipatório de mergulhar.



Já fiz snorkelling de cabeça afundada na água, para coscuvilhar a vida alheada dos peixes e a flora aquática. Já conheci lugares lindos como este. Mas viajar nas águas, de garrafas às costas, é confiar na qualidade apanágio dos que mergulham sem hesitações. Insuflar a curiosidade por um habitat que não é nosso por natureza e imergir nas linhas abertas de um novo mundo. Para isso, é preciso correr o risco e confiar. Respirar fundo e confiar. Foi o que fiz. O medo foi baixando gradualmente, com a consciência a ganhar mais informação sobre a experiência que se seguiria. Para começar, ninguém saltava de costas; tratava-se, afinal, de um salto de pé: um passo largo em frente sobre o abismo das águas. Um passo de fé que reduziu a dificuldade para metade. O colete insuflado não permite mergulhar, mesmo com o chumbo no fato, há que retirar o ar por partes. Sem grandes riscos, está tudo rigorosamente testado. Assim dei o meu passo no chão azul líquido, mergulhei e emergi. Tudo em dois segundos de duração. O fato não deixa sentir o frio da água de Sesimbra, mesmo ao final da manhã, e quando já todos estávamos na água treinamos a respiração e simulamos os gestos para comunicarmos dentro de água. Antes de descer, tive de adaptar-me à máscara, que teimava em inundar-se a cada metro, o que me impossibilitava de ver com clareza o interior das águas e toda aquela vida escondida. O João trazia uma máscara a mais para substituição, que me resolveu o problema eficazmente. Depois? Depois foi aproveitar o mergulho e descer faseadamente e mais profundamente. Felizmente, o dia estava claro. Vi um cavalo-marinho a passear-se. Vi corais. Vi flores dançando sem cheiro nenhum. Senti a areia do fundo, onde a terra terminava apenas a 12 metros da linha água-ar. Banhei-me com os cardumes prateados: peixes geometricamente movendo-se, mantendo os mesmos espaços simétricos, como os estorninhos fazem no céu. Acho que a noção de epicurismo aplica-se bem aqui. A contemplação esgotara a noção de tempo. O vagar prazeroso de nos deslocarmos é um movimento lento ou rápido das vagas, que parece intemporal. É tudo mágico e merece estar preservado. Não admira que as pérolas se refugiem ali.

Porque é a natureza tão perfeita? Tão harmónica? Quando estamos dentro de água, os cardumes não se afastam: somos peixes como eles ou fingimos ser. Afundamos o nosso corpo na esperança da metamorfose e eles não nos estranham. À passagem de uma luz humilde, consegui tocar-lhes as escamas vivas e não é algo que possa esquecer. Lá dentro de água existe um silêncio vibrante, uma ausência de palavras, mas as palavras ficam mais vivas dentro da cabeça. Perguntei-me qual será a linguagem inaudível daqueles animais? Efetivamente não se pode falar mas repara-se em tudo com maior deslumbramento. Lembrei-me da frase de Joseph Addison: “o homem distingue-se dos outros animais pela faculdade do riso”; e viajar em profundidade é uma entrega, um retiro onde é possível pensar mais claramente, mas onde, enfim, calamos para fruir da experiência, dos mistérios, das maravilhas que vão passeando por nós, sem percebermos as notas musicais das bolhinhas de ar mas guardando todos os nossos risos para depois libertarmos à tona.

