Pessoas com música por dentro

O melhor de andar pelo mundo é o que acontece enquanto se vai. Não é o destino, não é a origem: é o trajeto e o estado de nunca saber o que pode acontecer entre dois pontos. E desconhecer o comprimento entre um princípio e um fim sem anúncio, é imenso. Não conhecer os dados nem quantas vezes os deuses respondem. E o número, ao todo, de quantos procedimentos. Quantos planos. Quantos desejos de morangos silvestres. Quantos cafés. Quantos buracos na estrada. Quantas moradas diferentes. Quantos tijolos de xisto. Quantas notícias de longe a accionar-me a turbina do peito. Aqui, há nuvens que caem do céu. Saudades da praia. Nomes noutros dialetos. Muitas vezes uma vontade enorme de rir. E tantas vezes fitas de embrulho, brilhantes. Novas canções na rádio. Músicas cor de pérola onde coexistimos na mesma vibração. Como dínamos. E, aqui e ali, pessoas com outra música por dentro. Servidas em travessas de prata. Muito limpa para refletir em espelho. Deixar o presente ser igual ao presente. Rir. Porque os outros são cidades cheias de janelas, memória e dia. Pequeníssimos universos a sós cheios de estrelas por cima. São também estórias passadas e sonhos de futuro. Mares mal medidos e ventos de outra temperatura. São aqueles que não vencem nem perdem sozinhos. Cálcio de outros ossos mas água do mesmo mar. Caminhos longos que te intersetam numa breve eternidade. E quantos nesses caminhos, quantos sem rosto levas que, entre um segundo e um segredo, dançam para ti?