A Savana Africana

Foi em África – e, mais concretamente, na Tanzânia, em plena savana – que percebi que o objetivo da minha vida haveria de ser o de continuar a viajar e a conhecer. Foi também a única vez recordada em que o entusiasmo em relação à programação da aventura e à própria ideia da viagem foi maior no final. Normalmente, a antecipação das coisas agrega uma certa (grande) ansiedade, que vai decaíndo conforme a aventura prossegue. Mas, neste caso, não. A vastidão deste continente fez de mim para sempre uma outra pessoa. As árvores, os arbustos esporádicos, as gramíneas (ou como se diz, com outra graça, em inglês: summer grass) a cobrirem o solo, os lagos-oásis perfeitos na fotografia,  uma criança masai a pastorear a sua liberdade, as aves aos milhares fazendo a paisagem mudar a cada nanosegundo, e a tranquilidade dos outros animais descansando nos pastos ou partindo em migração indiferentes à espreita dos jipes. Ali senti a felicidade inteira de estar viva, senti a vontade de ter dentro dos olhos e do coração o resto das pessoas. Porque o amor pode ter muitos caminhos mas onde quer que eu vá o melhor de tudo será sempre a natureza.

Manada de búfalosThomson's Gazelle (Antílopes)BúfalosHipopótamo entre cegonhasGirafasZebraMenino e aldeia MaasaiPadrão de cegonhas no céuGirafa

Imagens: Lake Manyara National Park

‘No mar estava escrita uma cidade’

Foi em frente ao Copacabana Palace que as vi. As tecedeiras mágicas de trancinhas africanas. E, ante a possibilidade de me manter penteada nos dias seguintes, não hesitei um segundo. Decidi ficar a aguardar a minha vez, com as minhas amigas igualmente à espera. Há lugares onde situações como esta ganhariam uma espécie de espessura que pareceria aumentar o tempo, no entanto, há outros em que acontece o inverso. O calçadão carioca é uma sala de espera delirante porque os brasileiros são naturalmente bem-dispostos, curiosos e de bem com a vida. Na verdade, nesta viagem, retive para mim, que o povo brasileiro utiliza o sofrimento como um profissional da rádio, com um talento similar para fabricar permanentemente alegria. Ou então redescobrem-se em face da melancolia, fingindo-a. Talvez a convertam numa outra coisa, exorcizando a amargura que a todos algum dia atinge, porque demonstram invariavelmente bom humor, ou, como preferem dizer, alto astral. Por isso, não me lembro de as meninas demorarem mais de 10 minutos trançando-me o cabelo. As distracções já eram muitas além dos transeuntes enquanto esperávamos: a moldura da cidade com o mar por dentro, a Urca unida por fios com carrinhos ao Pão-de-Açúcar, os campos de jogadores na praia, os vendedores de água de coco e os prediozinhos alinhados ao longe. No mar estava escrita uma cidade, uma cidade muito cheia de clichés mas o Rio de Janeiro tem direito a isso tudo e mais. Há uma imensidão de paisagens quando se olha do Corcovado. E Cristo de braços abertos a abraçar o céu e toda aquela cidade que deslumbra, única, mais bonita do que os postais mais bonitos e as fotos mais carregadas de efeitos. Vale a pena corrermos a todos os recantos porque as diferentes perspectivas são lindas e cheias. Então lá estava eu, Carlos Drummond de Andrade, e a Flávia, num banco em Copacabana. Já lá vão 10 anos e parece-me que foi muito mais tempo atrás. Isto há-de querer dizer que eu aproveito o tempo que passa, enchendo-me com o novo para sobrepor nas várias memórias da minha vida. Para quem lê, esta estória podia ter sido ontem. Felizmente, nada, de facto, se sobrepõe. Simplesmente cada coisa fica no seu lugar, ou então, as camadas estarão lado a lado num espaço estranhamente sem geometria temporal. Como aquele mar sem fronteira, que é o mesmo mar agora e já anunciava a cidade antes do Rio nascer.

Em frente ao Copacabana PalaceTrancinhas - CopacabanaTrancinhas - CopacabanaDrummond e eu - Copacabana

Global Cosmopolitans

Nova Iorque é aquela cidade muito viva de pessoas temporárias, frenética, onde o mais difícil é encontrar nova-iorquinos. Uma vez na vida devemos ir a Times Square, onde a Broadway se cruza com a 7.ª avenida e há sempre lugar para mais um. E quando o mais um sou eu, importa-me perceber no local o que já antecipo porque esta experiência é amplamente partilhada mas, de facto, não se esgota. E somente experienciando se vive. Então, olhamos em frente, em volta, e para cima e ei-los: os néons gigantes, a publicidade, as lojas como o mundo da M&M, as escadas vermelhas da TKTS e não importa se é dia ou noite porque a cidade está sempre acesa e bem desperta. Depois, não virar as costas ao óbvio: passear pelo Central Park, passear de barco em Manhattan a pretexto de ver NY em full frame, ir ao museu da imigração em Ellis Island, ir cumprimentar a Estátua da Liberdade a Liberty Island, para depois avistá-la pequenina da Ponte de Brooklin. Subir ao Empire State Building e desfrutar da paisagem com os olhos porque as fotografias não têm a mesma dimensão. Já no chão, não pode deixar de visitar-se a histórica estação Grand Central Terminal, e também o Ground Zero onde as torres gémeas se afundaram e novas torres se construiram. Eu adorei os museus desta cidade, o MET, o Solomon Guggenheim, o American Museum of Natural History e o meu amado MoMA.

Com adrenalina na Madeira

Adrenalina na Madeira é ser levado dentro das cestas pelo asfalto abaixo. As casinhas  tradicionais são excelentes postais. O teleférico é mais um teleférico com as suas vistas en dessous. Mas são os cerca de dois quilómetros que valem a experiência de não sabermos bem se os senhores vestidos de branco sabem mesmo o que estão a fazer. As cordas, a forma de travar e a inclinação da rua. Parece tudo imprevisto mas a prática do ofício ganha. No final, as cestas são carregadas num camião até ao ponto de partida.

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Sem ordem, mas por acaso

Esta cruzada será um pouco aleatória. Há muitas fotografias e vontade de falar sobre elas, recordando-as. Os dedos ajudam na tarefa de eternizar estas palavras que a boca não chega a dizer. Esta fotografia veio da Madeira, mais concretamente, no alto da Ponta do Pargo, um lugar mágico, onde havia um salão de chá chamado «O Fio» que encontramos por acaso. Um dos lugares mais bonitos onde estive até hoje.

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A razão das coisas

Registar o que temos nosso de mundo. Pode ser a água a levar-nos. Pode ser o vento, ou qualquer outra coisa sem nome que nos arranque os pés dali. Uma viagem pode ser um atravessar de estrada, um trabalho num país diferente, umas férias para celebrar que estamos vivos, ou até mesmo um olhar no qual se repara. Mas, sempre que viajamos, expandimos o nosso conhecimento porque lidamos com o novo, aprendemos a enfrentar imprevistos e desenvolvemos a auto-confiança. O intercâmbio cultural faz-nos ser mais tolerantes porque percebemos que existe o lugar de um outro. É importante ir conhecer para ter mais mundo porque os lugares onde não fomos não existem nas nossas memórias, então é como se não existissem. Viajar transforma-nos. ‘A vida é um sopro, um minuto. A gente vem, conta uma estória e vai embora.’ disse Niemeyer. E é mesmo assim nesta velocidade, nesta ordem. E é mesmo assim que cá estamos de passagem. Eu conto estórias com imagens da minha vida, às vezes acrescento música e umas pedrinhas de sal, porque a água salgada lembra-me o mar, e o mar leva-me à praia e a praia chega-me o sol à pele. Viajar deixa-nos sonhar com viajar mais. E devemos agarrar os nossos balões. Ir para longe, o mais longe possível para nos enchermos de vontade de voltar. Há mesmo alguns privilegiados que por ali flutuam, quase sem gravidade, avistando-nos como um ponto azul do espaço.